Dia do Folclore: Olha lá o Saci

[dropcap]A[/dropcap]final, o que faz um saci no teto da igreja de São Benedito? Como pode compartilhar a companhia dos anjos, se a Igreja o considerava um ente demoníaco? Quando o artista plástico Cid Serra Negra o pintou ali o fez, sobretudo, por coerência pessoal, afirma a pintora e escritora Maria Rita Rieli, com quem conviveu – moravam em Serra Negra, SP, município do qual tomou emprestado o nome. “Por que não?”, desafiaria, se fosse vivo. “Ele acreditava em mitos, respeitava as tradições populares e fazia questão de valorizá-las aos olhos da sociedade”, diz. Desagradou fiéis mas não foi taxado de herege, como esperava, embora talvez o fosse se o pintasse na igreja matriz, não na de São Benedito. De qualquer forma, o saci está lá, com asas e auréola, como se vê na foto à direita.

Segundo a crença popular, pode ser visto em todas as regiões do país, principalmente à noite. Tradicionalmente, é descrito como um negrinho de uma perna só, com cachimbo na boca e uma carapuça vermelha que lhe dá poderes mágicos. Adora travessuras. Esconde coisas de terceiros, derrama sal na cozinha, solta animais dos currais. “Se, de manhã, você encontrar um cavalo com a crina trançada, pode ter certeza: foi o saci”, garante Ditão Virgílio, de 52 anos, apicultor em São Luiz do Paraitinga, a 180 quilômetros da capital paulista.

Ele diz que o viu pela primeira vez aos seis anos. “Tava no alto do morro quando vi folhas balançando no meio do mato e um cisco crescendo ao redor. O cisco foi crescendo, crescendo e, de repente, virou rodamoinho. Então eu vi o saci no meio do vento. Nunca esqueci. Era um negrinho com gorro vermelho fazendo careta pra mim. Apesar do susto, não tive medo. Parecia um menino como eu! O rodamoinho que ele montava rodopiou morro abaixo e fui atrás, coração na mão, curioso. Daí, subiu até um taquaruçal fechado e sumiu. Só depois descobri os furinhos no bambu, onde os sacizinhos nascem. Meu pai me achou detrás de um toco, meio abobado, e me levou pra casa. Minha mãe me olhou e disse: não é nada; acho que viu saci.”

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Segundo consenso entre historiadores e folcloristas, o saci é o mais popular dos mitos brasileiros. Há outros, como o lobisomem, o caipora, a mula-sem-cabeça, a iara e o boitatá, reconhecidos em quase todo o território nacional. A maioria, porém, circula em regiões específicas: o mapinguari, o boto e a boiúna, na Amazônia; o cabeça-de-cuia, o barba-ruiva e o gorjala, no Nordeste do país; o Romãozinho, no Centro-Oeste; os negros d’água, no Sudeste; o Negrinho do Pastoreio, no Sul. O lobisomem se aproxima em popularidade, mas é um mito europeu. Veio com os colonizadores portugueses – há quem diga que havia um na caravela de Cabral. O “perneta”, ao contrário, é genuinamente nacional.  Como diz Mário Cândido, presidente da Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci, “é uma síntese das três raças que formaram o Brasil: o índio, o negro e o branco”. Nasceu curumin, moreno, com duas pernas e um rabo. Durante a escravidão, confrontado com a mitologia africana, perdeu uma perna, escureceu e passou a fumar cachimbo – o pito dos pretos velhos. Por fim, ganhou o gorrinho vermelho dos europeus – o pileo, dado aos escravos libertos na Roma antiga.

Agora, virou símbolo de resistência contra o colonialismo cultural, status que já alcançara no início do século passado, à época de Monteiro Lobato. Na ocasião, o escritor fez uma pesquisa entre leitores do jornal O Estado de S. Paulo, publicada sob o título “O Sacy Pererê – Resultado de um Inquérito”, através do qual criticava o “afrancesamento” das elites brasileiras, em detrimento dos valores e raízes nacionais. A França era a principal referência cultural no cenário internacional – hoje, são os Estados Unidos.

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